Falta de planejamento urbano pode atrapalhar
Desenvolvimento e sustentabilidade faz parte da pauta de discussão do setor da indústria da construção civil
...O planejamento urbano alinhado a uma perspectiva de desenvolvimento e sustentabilidade faz parte da pauta de discussão do setor da indústria da construção civil, que vive um período aquecido. O tema, juntamente com o desafio da integração dos países vizinhos, foi amplamente discutido na última semana durante um evento em nível nacional dos sindicatos de engenheiros de todo o País, que ocorreu em Porto Velho.
Para o presidente do Conselho Federal de Engenharia, Arquitetura e Agronomia (Confea), Marcos Túlio de Mello, a Capital vive um momento especial, em que tem a oportunidade de planejar melhor a infraestrutura da cidade e também da construção civil. Em entrevista ao Diário, Mello estabelece um panorama de perspectivas sobre a região amazônica.
Diário: O Brasil vive hoje um bom momento econômico, sobretudo no setor da construção civil. Como o senhor define o papel da engenharia neste contexto?
Marcos Túlio de Mello: Na verdade temos uma situação que vem com a participação da engenharia em várias áreas há algum tempo. Não só neste momento presente, que é muito auspicioso e positivo, mas que se verifica em situações de anos anteriores. Tivemos na agronomia um processo também de construção do agronegócio brasileiro e da agricultura familiar com a participação muito ativa dos profissionais da área de engenharia agronômica que elevaram a nossa agronomia a um patamar hoje altamente competitivo onde temos a produção de alimentos para nosso consumo interno, uma grande exportação também. Talvez seja dentro das commodities agrícolas um dos itens mais importantes de exportação brasileira, criando uma tecnologia tropical que não existia anteriormente e que teve o papel muito importante da engenharia na área da agronomia. Mais recentemente, com o processo de retomada do crescimento econômico, a partir de 2004 principalmente, nós tivemos uma ativação muito grande da perspectiva econômica onde os engenheiros retomam o patamar de reconhecimento social como profissões essenciais a sustentação deste projeto de crescimento e desenvolvimento. Agora, inclusive um desenvolvimento qualificado, com sustentabilidade econômica, social e ambiental. A construção civil cresce a taxas bem superiores a do PIB brasileiro e uma grande articulação com as empresas e das organizações profissionais para cumprir uma pauta de investimentos em infraestrutura extremamente grande. E que inclusive não nos preparamos adequadamente.
Faltaram engenheiros no País para fazer todos os programas de investimentos previstos, tanto no PAC 1, como também do PAC 2, e agora a questão da Copa de 2014, Rio + 20 e Olimpíadas de 2016, vários eventos que mobilizam investimentos extremamente importantes para o nosso País e que são executados por profissionais da engenharia.
Diário: Como o senhor observa da região Norte nesta conjuntura?
Mello: A região Norte está dentro deste contexto também. Temos estes investimentos também da iniciativa privada, que estão se realizando com o PAC, Minha Casa Minha Vida, como em todos os Estados do País.
Manaus foi uma das 12 cidades escolhidas como sede para a copa de 2014 e tem se articulado de uma forma competente, basta observar o boom que está acontecendo hoje na região Norte, no Amazonas, Belém. Aqui com os investimentos que foram feitos nas usinas de Jirau e Santo Antônio é um processo que trouxe a retomada de uma perspectiva dos investimentos e empreendimentos não só em Porto Velho, mas em todo o Estado. Isso é uma mobilização extremamente importante que resgata o papel da região Norte no processo de desenvolvimento brasileiro. Observamos também que há investimentos na área educacional coerente dentro de um ponto de vista de planejamento estratégico para suprir a demanda de profissionais aqui na região, e eu tenho certeza que teremos uma região Norte e uma Rondônia completamente diferente do que foi no passado. Se vocês prepararem aqui em Rondônia e tiverem um apoio das organizações profissionais de engenharia, arquitetura e agronomia de uma forma coerente, vocês aqui terão belas cidades e com infraestrutura totalmente diferenciada do que é hoje no Sudeste, onde os grandes problemas de planejamento urbano geraram situações de grandes dificuldades. E vocês estão reiniciando um processo de planejamento urbano que torna em fazer as coisas corretamente. É preciso fazer as coisas corretamente agora.
Diário: Um desafio que enfrenta a região Norte foi o incentivo à ocupação desordenada impulsionada por projetos de colonização do governo Federal, mas que por outro lado, criaram problemas de infraestrutura urbana. Como estes profissionais poderão lidar com isso agora?
Mello: Quando o Estado começa neste processo de retomada do seu processo de desenvolvimento isso se faz de uma forma planejada. E quem planeja? Os profissionais de engenharia, arquitetura e também de agronomia. Então precisamos envolver o sindicato e os profissionais nesta perspectiva de construção deste futuro. O plano diretor, por exemplo, é essencial para todas as cidades. Como se amplia o potencial que tem com aporte de tantos trabalhadores que aqui vieram e também do processo que vai se dar sem planejar a cidade para poder ter esse boom? Vocês tiveram um boom imobiliário aqui, nos últimos três ou quatro anos, impressionante. Isso tem que ser planejado a estrutura viária, o sistema ou um plano de transporte urbano, um projeto também para garantir a estrutura de saneamento, coleta e tratamento do esgoto para evitar a poluição, inclusive nas bacias hidrográficas que têm um papel essencial. É preciso pensar também em avenidas largas dentro do plano viário, e em situações de praças e numa arborização em função da temperatura bastante alta que tem aqui na Amazônia. É preciso preservar através de corredores de trânsito também a condição do pedestre. Diria para você que aqui existe um problema gravíssimo que são as calçadas, que estão construindo agora. Tem que ter calçadas com acessibilidade não só para o deficiente físico, para o idoso, crianças, mulheres grávidas e para todos nós que teremos alguma deficiência temporária ao longo do tempo. Então é o momento de planejar e executar com rigor o planejamento para garantir cidades sustentáveis no futuro. Projetar, dentro do plano diretor, um plano de drenagem já que vocês têm um problema de escoamento que precisa ser resolvido, um projeto de saneamento coerente com as demandas atuais e futuras, projetando isso para os próximos 30 anos, precisa fazer uma arborização adequada, e também ter um código de obras que traga a obrigatoriedade dos recuos necessários para as edificações e para áreas de ventilação adequadas e também para maior qualidade, dar beleza. É preciso usar a arquitetura e os arquitetos para projetar corretamente o que precisa ser feito. Porque se vocês fizerem isso agora, que está reiniciando esse processo de crescimento, vocês terão uma bela cidade, com qualidade de vida. Senão fizerem isso, vão se transformar em uma São Paulo, Rio de Janeiro ou Belo Horizonte que tem gravíssimos problemas e que a solução é muito mais onerosa do que quando você tem no início, um projeto correto. E aí articular politicamente é o papel também das nossas entidades de engenharia, o Crea e o sindicato. Articular com o poder municipal e estadual para buscar o recurso federal necessário para esses investimentos. Vocês fizeram uma bela mobilização quando foram construir as duas usinas aqui ao negociar contrapartidas destes investimentos para poder resolver parte dos problemas de infraestrutura que vocês têm. Agora o momento inclusive de colocar novas condicionantes para a operação deste processo e para garantir nesse início, a qualidade de vida da população no futuro. Isso tem que ser feito com a participação dos engenheiros e entidades de classe em uma mobilização social grande. É preciso que cada cidadão aqui de Porto Velho e de todas as cidades de Rondônia se conscientizem da importância de perceber o futuro, ajudar a projetar esse futuro e a infraestrutura necessária e lutar para implementar o planejamento. Não basta ter planejamento, é preciso que ele seja consolidado na prática. É preciso que a população seja envolvida na discussão das obras prioritárias em função dos recursos disponíveis, mobilizar a comunidade para que ela exerça sua cidadania de fato para trazer suas visões do que é esse futuro que vem pela frente e quais são as prioridades a cada momento a serem enfrentadas do ponto de vista dos investimentos públicos e privados também.
Diário: Há em todo o País uma perspectiva de desaceleração do crescimento da indústria da construção civil, sobretudo em Rondônia onde há uma projeção de queda no setor após o término das duas usinas. O senhor confirma esse quadro?
Mello: É verdade. Nós vamos ver uma pequena redução no ritmo de crescimento da construção civil brasileira. Em primeiro lugar porque estamos vivenciando uma crise internacional, que é a mesma de 2008.
Mas mais do que isso. Quanto foi que aumentou o preço dos imóveis em Rondônia nos últimos três anos? Muito mais de 100%, Já tive notícias de um preço de imóvel aqui estar 10 vezes superior ao que era quatro ou cinco anos atrás. E isso tem um limite. Vai haver um equilíbrio tanto no preço como também nas construções.
O que cabe aqui ao Estado fazer é saber que isso vai acontecer e de planejar atividades econômicas que sustentam o processo econômico e gerar novas oportunidades de construção também. Há outros potenciais de desenvolvimento econômico que precisam ser avaliados, como a piscicultura. O processamento dos produtos florestais que têm aqui, da selva. Vocês têm uma engenharia florestal muito pujante aqui em Rondônia e tem um potencial de produzir madeira para consumo interno, externo e exportação de uma maneira muito interessante. Deve pensar também num processo de industrialização, agregado a uma capacidade de energia elétrica. É preciso garantir que a energia gerada nas duas usinas atendam também as necessidade da região Amazônica e não apenas interliguem para atender as demandas de crescimento do Sudeste. Isso faz parte de um projeto de Rondônia que precisa ser construído com governo do Estado, pela sociedade e pelas organizações sociais com o pensamento de 10, 20 e 30 anos. Quando você tem o projeto claro e começa a fazer os investimentos você vai captar também da iniciativa privada investimentos quando a lógica deste desenvolvimento for entendida e tiver viabilidade de fato. E o potencial aqui, é enorme. Nós precisamos dar exemplo. O Brasil vai sediar a Rio +20. Há 19 anos, nós tivemos no Rio de Janeiro o primeiro debate de desenvolvimento com sustentabilidade. A região Amazônia não terá o mesmo desenvolvimento que teve o Sudeste. Tem que buscar a sustentabilidade das condições da região. Eu tenho certeza que isso será feito com a participação muito ativa de toda a comunidade aqui e com a contribuição dos engenheiros aqui de Rondônia.
FONTE: Diário da Amazônia


